"O bom selvagem"

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Religião e a condição humana

In English Version, Política, Textos Variados on June 29, 2010 at 23:59

Há uma semana vi uma reportagem sobre crianças sendo treinadas para tornarem-se homens-bomba numa região montanhosa em algum lugar remoto no Paquistão. Esse post não se propõe a enumerar as diversas razões pelas quais essas crianças são atraídas pelas células terroristas. Porém, vale lembrar que os pais às vezes recebem uma ajuda de custo durante a estadia da criança na escola especializada em instruções militares e em outras atividades. Essas criancas não só lá, como em vários outros centros de instrução terrorista aprendem a ler o Alcorão em árabe, sendo que não possuem nenhum conhecimento da língua.

O que eu gostaria de ressaltar, levando em consideração o meu repúdio de tais atos, é o determinismo que leva o indivíduo a detonar o próprio corpo em um lugar público com o objetivo de tirar a vida de dezenas. Afinal, muitas vezes tratam-se de crianças acionando a bomba que lhes custará-las a vida.

A minha hipótese  é a de que dado as condições extremas de que essas crianças são confrontadas todos os dias, mais vale morrer como um herói do que viver como um miserável. Afinal, além de honrarem os ensinamentos de Alá nesse mundo, na vida após a morte serão recebidas com jarros de mel e leite, e 72 virgens. Insano? A inocência e a frugalidade dessas crianças é de cortar o coração.

Parece-me como uma meta de vida razoável. Uma forma de sair de um estado de total desespero, miséria, fome, desamparo, e agressão do meio em que vivem, sem nenhuma prospecção de futuro, para encontrar o subterfúgio num afterlife glorioso. Faz sentido.

Não são esses mesmos sentimentos que levam milhares de pessoas no Brasil a frequentarem igrejas de fundo de quintal que já aceitam dízimo pago com cartão de crédito? Ou qualquer outra instituição religiosa que promova a segurança, comforto e a expectativa de uma vida melhor, nesse ou no outro mundo que pretenda conforta-nos quanto as desigualdades e a nossa condição humana?

É interessante que por de trás de toda instituição que clama divulgar a “verdade”, existe o indíviduo pobre de espírito à procura de respostas e de uma lógica holística para o entendimento do mundo e o sentido da vida.

Eu não vejo diferença entre um conto de 72 virgens ou um céu com anjos alados. Essas e outras crenças aliviam as maselas do dia a dia e apresentam a racionalidade irrefutável de um deus onipresente que reina soberano e desconhece a expressão “prestação de contas”. Nós somos movidos por aquilo que acreditamos e é natural do ser humano procurar o sentido das coisas. Parece-me que além da aparente harmonia que a religião nos promote há tambem a introdução de certos princípios, que nos submetem a uma vida regrada. Afinal, alguns ao notarem a sua condição de livre arbítro optam por uma vida de desordem, à procura do intenso prazer e nada mais, como o personagem de Oscar Wilde, Dorian Gray.

Talvez essa seja uma característica muito apelativa que faz tantos aderirem a uma determinada religião. Eu acredito que, viver numa comunidade na qual a maioria das pessoas segue ou pelo menos, está ciente das várias formas de conduta que não são impostas (ao contrário das leis), mas articulam um discurso de “verdade”, traga um pouco mais de coesão social na vida em sociedade. Não que isso seja a resposta definitiva. Pelo contrário; é muitas vezes a razão de discórdia.

A discussão contemporânea a esse respeito basea-se no que fazer quando dois discursos opostos colidem.  Por exemplo, a adoção ou não da burca em escolas no oeste europeu. Os valores ocidentais devem ser reinforcados ou devem-se deixar novos hábitos e costumes permearem os tão consagrados valores ocidentais? Será que é possível articular um entendimento comum entre os povos em relação à direitos humanos, relações econômicas e sociais? Certamente.

Para isso, a meu ver, seria preciso um maior entendimento da condição humana acarretando inevitavelmente a instinção de toda e qualquer instituição que vise apropriar-se do sofrimento humano para submeter a humanidade numa relação de escravo e mestre. Um novo Iluminismo é necessário. Nas palavras de Mikhail Bakunin:

“I mean that freedom of the individual which, far from stopping as if before a boundary in the face of the freedom of others, on the contrary finds in that freedom its own confirmation and extension to infinity; the unlimited freedom of each in the freedom of all, freedom in solidarity, freedom in equality; triumphant freedom, victorious over brute force and the principle of authority which was never anything but the idealised expression of brute force; freedom which, after overthrowing all the heavenly and earthly idols, will establish and organise

a new world, that of humanity in solidarity, built on the ruin of all Churches and all States.”

(Bakunin, in Dolgoff 1973)

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Dolgoff, S. (ed.) Bakunin on Anarchy, London: George Allen & Unwin, 1973.

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A ciência nada mais é que o senso comum refinado (G. Myrdal)